quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

CAUSOS DE MOÇOS E MOÇAS




CONTO - CAUSOS DE MOÇOS E MOÇAS


Eu repito com muita freqüência: Morrer eu não quero, mas ficar velho é uma droga! Não que esteja velho ou que sinta estar velho. Nada disso. Apenas, diria, começo a invejar os causos de moços e moças. Tentarei explicar, pois são esses causos que trazem a idéia de “ficar ou não ficar velho”.
Estava sentando na porta de casa com Zé Henrique, um amigo um pouco mais velho que veio pra capital tendo nascido no interior e na roça. Relembrávamos as coisas da infância e adolescência. Morávamos numa esquina de uma pequena ladeira em S. Não víamos que vinha nem de um nem de outro lado. A conversa corria animada naquela noite de temperatura agradável. Ora um ora outro se lembrava de um detalhe tendo os apartes concedidos automaticamente pelo outro. Prosa boa é assim. Tem fluidez, seqüência, é quando o outro mostra interesse. Na verdade para ambos essa conversa estava boa.

Um fato chamou à nossa atenção. O ir e vir dos moços. Jovens casais saindo como que indo à praça namorar. E em nosso tempo Zé? ─Foi a deixa para a conversa correr para esse lado. Ele logo começou:
Hoje é tudo fácil. Arrumar uma moça pra namorar e logo já tem sexo. Nem bem se pergunta o nome e já estão transando. Meu tempo era um horror. A gente crescia na roça. Ia ficando curioso vendo os animais na natureza e imaginando como seriam as coisas. Os amigos mais velhos iam adiantando a curiosidade contando seus feitos e isso só aumentava a vontade de conhecer uma mulher. Era zoado a todo instante.─Diziam: Isso é menino donzelo. Donzelo... Donzelo... Não saia da cabeça. Mas como deixar de ser donzelo, se arrumar uma namorada era uma dificuldade? Perguntava ele, enquanto eu apenas ria e assentia com a cabeça. Mal balbuciava alguma palavra.
Senão veja como eram as coisas...

No final de semana, tipicamente no sábado, a tarde ia caindo e a gente nos preparativos para sair à noite. Banho tomado, outro banho de desodorante (perfume era coisa de gente chique), arruma cabelo pro lado e pra outro (em meu caso por esse tempo ainda tinha vasta cabeleira), adiantava o café para depois escovar os dentes. Deixava a camisa por último já na hora de sair rumo ao paraíso. Isso ocorria por volta das dezenove horas.

Lá chegando, uma volta padrão para identificar as amizades e conhecidos. Enturmar era a palavra de ordem. Conversas tolas, fúteis, mas que serviam ao propósito de ver as “moça bunita passá”. A coisa começava numa apresentação devidamente “preparada” para a ocasião ou por conta de uma troca de olhares furtivos. Desse primeiro momento até o instante de estar a sós com a “doce donzela” era o tempo de uma eternidade. Quando fosse rápido durava uma semana e isso se ela desse ares de reciprocidade e interesse.

Passado esse interregno de uma semana, lá estávamos na mesma praça. Inicialmente com outros amigos até a hora da saída para uma conversa mais particularizada. Leia: conversa. Nada de intimidades, que se ocorrera, estava circunscrita apenas à imaginação do pretendente. Afastados da turma, propiciava a conversa solta, que dava o rumo para lá para as vinte e uma horas, roubar da linda moça uma pituquinha. Isso mesmo. Um beijo roubado, ousado, atrevido. E em muitos casos recriminado de pronto. A moça não haveria de permitir-se a tal investida. Retomando a conversa era hora de deixar a mão passar por sobre um seio da donzela. Fato consumado, tapa na mão! Simples assim. Os olhos da moça traziam um misto de surpresa e excitação. “Como pôde ser tão ousado?” Essas facilidades davam o sinal para o primeiro beijo do casal de pombos enamorados. Agora avaliem como esse beijo era a expressão realística da divindade! Não sairia da cabeça durante outros sete dias. E chegando próximo das vinte e duas horas, hora da moças “de família” (todas são) de retornarem para as suas casas, o grand finale: Você quer namorar comigo? excitação, coração disparado, pernas tremendo, dúvida atroz... E? Instante de eternidade com a espera da resposta. Ela haveria de permanecer assim PA RA LI ZA DA para dizer ao final: Posso pensar? Mais uma eternidade na vida desse desbravador de emoções. E de certo como ele misturava sentimentos nessa hora, ele esperaria. Embora a satisfação e sorrisos bobos no rosto da moça já denunciavam qual seria a sua resposta. Mas isso só daqui a uma semana. Como uma novela aguarde as cenas dos próximos capítulos.

Não havia telefones disponíveis. Era caro ter um. Nada de internet sem seus aplicativos de comunicação, redes sociais eram os amigos na escola e na praça. O negócio era mesmo aguardar a longa semana. Até que de volta a praça, buscavam-se mutuamente entre os tantos rostos conhecidos e, cumpridos os protocolos com as amizades, era hora de afastarem-se deles para tão esperada resposta. (Usarei aqui da liberdade de ser o escritor e irei direto para a resposta sem mais delongas). Sim aceito. Sorriso e espanto em ambos. No garoto era a glória. Hora em que o beijo já não era mais roubado. Beijo longo, esperado, desejado. Para o homem era aquele beijo mela-cueca. As mãos-bobas agora esperadas já faziam a parte que lhes apraz nesse evento. Aperta daqui, aperta de lá, línguas que se cruzam num frenesi constante. É esse o beijo mais demorado na vida do guerreiro. Se tivesse uma irmãzinha capeta, ao chegar a casa ouviria: Ta namorandoooo, fulano ta namorando. E seu doce segredo já estaria descortinado.

A semana do ainda donzelo agora tem o fulgor dos raios de sol. Os ventos agora o refrescam de um modo singular. Há beleza em tudo, em especial nas lembranças da última noite de namoro. Os autoflagelos (aquele famoso cinco contra um) intensificavam em número e qualidade. O namoro prossegui, os aprendizados mútuos também, até que a moça seja assediada para dar ao namorado ‘uma prova de amor”. Amam-se, mas falta algo que confirme esse sentimento e ele espera dela esse consentimento. (aqui eu pulei a fase de apresentá-lo à família, o pedido para namorar, a angústia diante do pai da moça, etc). Agora ele quer sexo. Só pensa em sexo. Já informou-se sobre como acontece uma relação. Domina todos os detalhes. Sabe tudo. Falta-lhe a prática. E como ele a ama, será ela a escolhida para levar à cabo sua iniciação.

Por obra e graça do divino, chega um dia, um belo dia, um dia “especial” em que cansada das investidas do namorado e igualmente excitada com a transa propriamente dita, ela em tom de anuncio de jornal nacional extraordinário diz: Amor, sabe aquela coisa que você me pede a doze meses? Isso mesmo! Um ano na espera e labuta, sussurrando ao ouvido da donzela o desejo de amá-la de corpo e alma!

E agora Zé Henrique? O diabo do sim abria o caminho para a felicidade! Mas quando? Onde? Como? Eram tantas as dúvidas que assombravam o moço. Não havia motéis. Nas próprias casas para achar vacância era como esperar por um prêmio de loteria acumulado. O jeito era ir ao rio, ou usar o matel (motel no mato).

Ela traria ainda novas preocupações. Como se não bastassem aquelas que ele já havia concebido. Faz com carinho, tá? E ainda outra: Promete que não vai me engravidar? E cresciam as angústias de ambos. Mas enfim o dia e a hora haviam chegado. Afastados da agonia vigiada dos pais e amigos rendiam-se aos beijos ainda mais acalorados. Verdadeiros chupões. Excitação em ambos. E a tão chegada hora. Livres das roupas, deitados, amando-se ainda com as mãos e bocas... Ainda há tempo para uma última expressão da moça que se retrai diante de seu amado: Não sei se é a hora certa. Se me ama, você espera meu momento!...

E levanta-se dali a toda deixando o galante donzelo atordoado e solitário com a sua própria volúpia. Ele terá que esperar ainda mais um tempo...


OZEAS CB RAMOS
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